A dor transformada

Tem uma coisa nessa vida que eu nunca entendi: câncer infantil. Não que não seja horrível em adultos, não que outras doenças não sejam igualmente devastadoras, mas ver crianças com câncer desde sempre despertou em mim… estupefação. Talvez por ser mais comum, talvez por ser mais evidente (a cabeça lisinha de químio é inconfundível). Não costumo questionar aquilo que considero desígnio Divino, mas juro que se tivesse uma audiência com Ele, de 5 minutos, era sobre isso que eu ia perguntar.

Deve ser por isso que o perfil de Twitter da Carol Varella (@ccvarella) me chamou atenção. E ele acabou me levando ao seu blog. Foi lá que a Carol contou a história da sua menininha, que aos sete anos teve que passar por coisas que ninguém deveria. Não foi a tristeza da história que me atraiu, mas a maneira como uma situação tão dolorosa era tratada: como algo a ser enfrentado, sem a autopiedade que costuma tomar conta de nós em momentos como esse e sem a arrogância de super-heróis. Estava ali o sofrimento que era de se esperar, mas encarado de frente, olhado nos olhos. Outra coisa que ficava evidente é que, nem nas piores horas, a tragédia daquela família era vista com individualismo, o tempo todo eles se perguntavam como poderiam ajudar outros na mesma situação. Eu me refiro a eles no plural porque a Carol e a Ana nunca estiveram sozinhas, elas tinham o Marcos, o pai da Ana, que entrou na vida dela aos dois anos e se recusou a sair. No dia 8 de julho de 2011 Ana Luíza se foi, assim como se foram algumas das crianças que estiveram no caminho dela durante sua luta, assim como se vão outras crianças que passaram pelas mesmas aflições de quem nunca ouvimos falar.

Desde então tenho acompanhado o luto da Carol pelo Twitter. Sigo com o coração de mãe, que não pode nem dizer que entende aquilo tudo porque nunca viu o filho seriamente doente, muito menos foi privada da presença dele no mesmo mundo, mas com a vontade sincera e inútil de poder chorar um pouco daquelas lágrimas. Só que ela tem feito muito mais que chorar, vem reciclando a tristeza, transformando-a em bem comum. Do mesmo jeito que converteu a luta da Ana em uma mobilização que atraiu centenas de doações de sangue e muita solidariedade, agora converte sua perda em um projeto. Carol e Soraya, mãe da Giulia, uma conterrânea e companheirinha de batalha da Ana, estão começando o sonho de ajudar crianças que passam pela mesma peleja de suas filhas. Principalmente as do Amazonas.

Ainda não sei direito como poderei ajudar, mas queria contar essa história. É uma maneira de repetir o que já tentei dizer em outros posts: A vida é uma jornada curta e o significado dela somos nós que damos. A Aninha em seus menos de 8 anos deu o dela.

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Uma resposta para A dor transformada

  1. Claudio Justo disse:

    O bacana, minha linda, é que esse seu texto me fez ver que na última semana foi criado o Instituto Alguém, que planeja lutar contra o câncer infantil.

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