Pela paternidade responsável!

Arquivo Pessoal


Tenho encontrado pais… Daqueles que fazem valer a pena a fama, o mito… Sim, porque a palavra pai é tão inteira, tão segura, tão confortável.

Ou talvez eu pense assim porque tenha um pai inteiro, seguro e confortável… Daqueles que se lembram de você e trazem uma paçoca no meio da tarde, num dia de semana, enquanto você está trabalhando.

Conheço muitos assim, que conhecem o coração dos filhos, lhes adivinham as angústias e vontades e se desdobram pra fazer parte da sua vida. E protegem…

Tenho uma sensação  esperançosa de que eles são cada vez mais comuns, esses que enxergam na partipação biológica (ou quem sabe um outro tipo qualquer) a chance de construir um ser humano com carinho e capricho. E fazem a relação ir além do orgulho de um nome numa certidão ou da parecença física.

Sinto uma doce solidariedade por aqueles que já perderam pra vida essa sombra morna, que nos faz parecer pequenos pra sempre, porque  sei que vão carregar pela existência a marca de ter tido o colo, o abraço…

Por outro lado me invade um pesar amargo ao pensar nos muitos que passam por todo o caminho sem nem a chance de ter essa saudade. Aqueles que só conhecem pai no papel (ou nem isso) ou ainda aqueles que tem sem nunca ter tido e veem sem nunca ter sido vistos.

Por essa razão, para celebrar meu pai, o pai do meu filho e tantos outros que fazem jus a essa benção, faço nesse dia de festa um apelo sério:

Pela paternidade responsável: Filho não é brinquedo!

Aos que sempre souberam: Feliz dia dos pais!..

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Repouso absoluto

Como todo mundo nessa vida também tenho surtos de auto impaciência. Às vezes começo a pensar que não estou sendo confiante o suficiente, ou esforçada o suficiente ou conseguindo tudo que eu deveria conseguir e fico frustrada comigo. Acho normal, acho necessário que isso aconteça, mas incomoda. Até porque minha sensação é de que estamos atravessando mais um ciclo de otimismo implacável na humanidade, uma daquelas fases em que o desânimo é inaceitável. As pessoas estão tirando umas das outras o direito de sentir suas perdas, de refletir suas falhas. O lema da moda é: “levanta, sacode a poeira e da a volta por cima” e não se fala mais nisso. Como se todas as pausas, todos os lutos, todos os hiatos fossem a mais absoluta perda de tempo.

Não estou defendendo um estilo de vida emo no qual todos nos atiremos nos abismos da autopiedade como adolescentes e idolatremos nossas angustias e falhas como únicas verdades… Também compartilho da noção de que nada mais sem sentido (e engraçado, me perdoem os adeptos) do que o velho “ninguém me ama, ninguém me quer”, mas acredito muito que há de se ter compaixão consigo. Há de se respeitar os momentos de impotência (entenda como quiser), de fragilidade, de cansaço. Eles fazem parte dos direitos inalienáveis de todos nós.

Estou de repouso absoluto. E apesar de todo o incômodo que isso implica nada mais confortável do que repouso absoluto. É a desculpa perfeita para ser poupado de qualquer coisa! Qualquer dificuldade, qualquer aborrecimento, por menor que seja, que fiquem todos sabendo: estou de repouso absoluto. E pra melhorar não sofri nenhum acidente, nem adoeci. Só sucumbi à vaidade… Não se emagrece 40 quilos nem de uma hora pra outra, nem impunemente (ninguém pensou isso, né, porque não é verdade), quando acontece sobra pele. Fui privilegiada e só aconteceu comigo na região da barriga (e, tenha dó, não fique questionando, nem é justo que a mesma pessoa tenha tendência a engordar e à flacidez ao mesmo tempo…) e, como houve “emagrecimento importante”, a UNIMED concluiu (sabiamente e eu concordei) que meu plano devia cobrir uma plástica de abdome.  Nesse caso é considerada cirurgia reconstrutora. E aqui estou eu.

Antes de dar esse passo precisei me recolher, resolver assuntos de dentro e de fora de mim. Não, não parei de correr (quer dizer, parei agora, porque como todos sabem: estou de repouso absoluto), mas parei de blogar e de saracotear tanto na internet.  Um tempo de reclusão que não me envergonho de tomar e acho que ninguém deveria. É preciso conhecer os próprios  limites físicos e emocionais e saber levá-los a sério, mesmo quando estamos no meio de um caminho importante.

E a cirurgia… Foi um sucesso. Nunca tive procedimentos médicos entre meus sonhos de consumo, mas se pode ser feito, se vai fazer bem… que seja

!

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Comer, comer…

Acho que não nos damos conta da importância da comida na nossa vida. Não do valor concreto, que mantem nossa subsistência e nem do prazer que nos da, esses aspectos percebemos desde sempre. Mas tem um outro que nos acompanha como se fosse um fantasminha e que está sim relacionado à subsistência e ao prazer, mas se confunde com tudo e acaba tendo um peso gigantesco: o significado emocional de comer.

Comecei a ficar mais sensível a ele depois que meu filho nasceu. A necessidade de um bebê que uma mãe mais quer satisfazer é a fome. Então fica sendo a primeira interpretação que damos a qualquer choro. E pode nem ser isso. Pode ser frio, medo, insegurança, até mesmo carência, mas acaba funcionando. O colinho quente, a atenção desmanchada da mãe; ser amamentado é um santo remédio. Para piorar, no meu caso, a criaturinha quase não tinha apetite. Mamava pouco e quando começou a comer nada parecia apetece-lo. Nunca imaginei que uma coisa como essa fosse me afetar tanto. Eu ficava enlouquecida. Ainda que ele fosse saudável, ainda que ganhasse peso (não muito, mas ganhava), ainda que a pediatra se esforçasse em tentar me convencer que estava tudo bem e que eu tinha que respeitar o ritmo dele, não me conformava, me sentia falhando. Via as mães de bebês gordinhos e elas eram só felicidade. Hoje fico pensando nas mensagens que estávamos passando àquelas crianças. Basicamente a de que comer é uma maravilha, faz a mamãe feliz e a de que não comer pode decepcioná-la profundamente. E pronto! Está estabelecida uma relação que vai muito além da alimentação. Aquele impulso de se auto confortar com alguma coisa bem gostosa. Aquela urgência de comer sem pensar para acalmar uma ansiedade. Como se estar saciada fosse resolver todas as nossas dificuldades. Só conseguimos sair dessa fantasia quando entendemos de coração que não vai. O conforto momentâneo de comer vai passar e quando ele passar o problema vai continuar ali do mesmo jeito e do mesmo tamanho.

Quando chegamos a uma certa idade, e no mundo moderno nem precisa ser tanta assim, já sabemos tudo sobre dietas, calorias, carboidratos, proteínas, fibras. Somos especialistas e ainda assim esperamos uma solução mágica, uma técnica revolucionária, uma iluminação celestial… um milagre. No fundo sabemos que não existe. O que precisamos fazer é nos agarrar à realidade matemática do nosso metabolismo: para engordar é preciso comer mais do que se gasta, para manter o peso é preciso comer e gastar em equilíbrio e para emagrecer é preciso gastar mais do que se come. Mas isso é óbvio!!! É, é o óbvio e temos que nos prender a ele.

Não vou falar aqui do meu regime infalível, da minha rotina de alimentação disciplinadíssima, da minha restrição rigorosa a alguns tipos de comida porque… nada disso existiu. Os mais variados métodos de controle alimentar sempre me encheram de ansiedade. Contar pontos, pesar comida, medir bife não funciona pra mim. A única maneira que encontrei foi tentar dissociar meu lado emocional da minha fome. Como?? Acreditando que era o único jeito, tentando me lembrar disso constantemente e pondo em prática todo aquele conhecimento em nutrição adquirido em anos lendo revistas, assistindo reportagens trocando figurinhas com as comadres.

O que isso inclui? Mais uma vez o óbvio: mais verdura, mais fruta, mais água, menos açúcar, menos massa, menos gordura e principalmente em menor quantidade. Comer com frequência razoável, em intervalos regulares (o conhecidíssimo esquema de 3 em 3 horas).  Prestar muita muita atenção ao que se come, de preferência anotando (vou confessar que não tenho disciplina pra anotar então faço listas mentais). Detalhe importante: se você acha que não deve comer alguma coisa, não compre. Exemplos: Pipoca; Tá com vontade? Procure um pipoqueiro e compre um saquinho. Sorvete; Com tanta sorveteria por aí pra que pote na geladeira? Lindas bombonieres de cristal com bombom na sala? Tenha dó! Isso vale para todos na sua casa, inclusive as crianças, garanto que você não vai matar ninguém. Eu ainda não matei.

Pouco tempo depois desse processo ter tido sua fase mais crítica recebi por email de uma grande amiga uma lista* de “Pensamentos Magros” e confirmei que não tinha feito nada inédito. Selecionei os que iam diretamente ao encontro do que vivi:

  • Ficar magra só depende de mim.
  • Preciso comer para continuar magra.
  • Tudo o que gosto de comer me faz bem.
  • O melhor horário para malhar é o que consigo ir.
  • Venço metas, não bato recordes mundiais.
  • Não vivo de dieta, faço escolhas inteligentes.
  • Um bombom é só um bombom.
  • Começo a me servir no quilo pelas saladas.
  • Sei quando estou com fome ou apenas com vontade de comer.
  • Fome não é catástrofe!
  • Não me coloco em tentação.
  • Emagrecer é consequência.
  • Não escondo nada de mim, sei tudo o que como.
  • Busco o prazer na vida e não na comida

*Matéria publicada na Revista Boa Forma. Se você quiser ler na íntegra clique aqui.

Dou minha palavra de honra de que foi assim, mesmo que muitos continuem insitindo na tese da cirurgia, do remédio, o que tenho contado aqui foi tudo o que fiz. A parte mais importante e mais difícil foi me colocar no controle, me convencer de que quem manda em mim sou eu (apesar das centenas de vezes que repeti isso na infância pro meu irmão ainda não acreditava). Para que dê certo preciso entender o que me move, o que me faz seguir em frente. No caso um forte instinto de sobrevivência.

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NAMORANDO

Li hoje no Twitter uma frase engraçada: “Antes dia dos namorados solteira, do que carnaval namorando!” Hmmmm… Será? Não tenho muita certeza. Mas de uma coisa eu sei: Antes dia dos namorados solteira, do que namorando e sem motivos nem vontade de comemorar. Sim… tem que valer a pena…

Senão é cabelo, unha, maquiagem, depilação, banho-de-lua, lingerie, vestido (quem sabe até mesmo espartilho, meia e cinta-liga) tudo desperdiçado. Aí, nessa hora, você fica na mesa daquele restaurante lotado, cheio de gente gargalhando à sua volta e na sua frente um homem mal-humorado, sem a menor disposição de te agradar… e você se amaldiçoando por ter caído nessa de novo. Então se lembra do seu pijama de flanela azul-bebê com viés rosa, seu edredon, seu travesseiro (com forro antialérgico) e pensa o que não daria pra estar lá e ter se poupado desse vexame, mais uma vez.

Se é o seu caso comece a se perguntar se desse jeito está bom pra você. Lembre-se de todas as concessões necessárias para manter um relacionamento e compare com as vantagens que tem. Seus momentos de prazer, de tranquilidade, de companhia. Aliás,  se pergunte se você tem mesmo companhia. Porque no final das contas  sozinha sozinha é bem mais confortável do que sozinha acompanhada.

Mas se você tem alguém que faz esse dia ter sentido, aproveite! Ame, ria, paparique e faça charme. Deixe que a data seja a desculpa perfeita para colocar em prática tudo o que esteve cansada demais pra fazer em todos os outros dias  do ano. Agradeça à vida a chance de partilhar alegrias com quem te faz bem, agradeça a vontade de estar ali, ainda que ali seja seu velho sofá. Viva cada momentinho de intimidade, cada prato congelado, cada piada boba, cada risada escancarada como se fosse a última.

E se você não tem ninguém, ou como prefiro pensar, se ainda não tem ninguém, aproveite essa tranquilidade ímpar. Ponha um roupão bem velho, faça um escalda-pés no meio da sala, uma máscara facial bem relaxante, reserve na locadora  aquele filme mais piegas que você morre de vontade de assitir e tem vergonha. Compre um sorvete bem caro ou abra uma garrafa de vinho, talvez até uma lata de leite condensado (só nesse dia, a vida é curta!).  Também se jogue no seu velho sofá e curta tudo como se o mundo fosse acabar amanhã e você tivesse direito a toda e qualquer indulgência!

Só não deixe que a falsa solidão tome conta. Solidão não é não ter namorado. Solidão é não gostar da própria vida, da própria presença, é nunca se satisfazer com nada, agir como se estivessem sempre te devendo. É não se reconhecer em alegria nenhuma, em pessoa nenhuma, em livro nenhum, em nenhuma música. Solidão é não se achar boa o suficiente nem pra si mesma.

Feliz dia dos namorados!

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Quando eu emagreci 40 kg… PARTE VI

Epílogo?

O peso ideal estimado para minha altura seria em torno de 63 kg. Eu não tinha uma meta rígida, a intenção era me sentir bem. Atingi esse número em setembro de 2009, mas continuei emagrecendo até o final do ano, mesmo estando mais relaxada com a quantidade do que eu comia. Cheguei a janeiro de 2010 perto de 60 kg. As pessoas mais próximas já começaram a se incomodar, a obsessão pela magreza é um fantasma perigoso que, hoje todos nós sabemos, pode assombrar a qualquer um. E eu ficava tentando explicar uma decisão aparentemente simples: Não vou parar de correr. Apesar da resistência de uma vida inteira preciso admitir que a vida com preparo físico é muito melhor. Nada como deixar seu corpo pronto pra fazer aquilo que ele nasceu pra fazer: se mexer. Nada se compara a ter disposição para coisas mínimas como lances de escada e percursos corriqueiros, sem preguiça nem esforço. “Mas por que correr?” Por que não? É uma atividade simples de se praticar, que exige da minha capacidade respiratória, do meu desempenho cardiovascular e da minha produção de endorfina. Pretendo continuar correndo enquanto tiver joelhos pra isso. Vou tentar justificar meus critérios.

Já contei aqui que depois de um tratamento longo e bem feito tinha conseguido melhorar bem as minhas mazelas respiratórias e já estava quase acostumada a respirar quantidades normais de oxigênio para um ser humano. Mas o que aconteceu depois dessa saga foi surpreendente até pra mim: a alergia desapareceu. Não estou dizendo que diminuiu, nem que está controlada, ela sumiu. Passei toda época fria do último ano sem uma crise sequer. Quando isso tinha acontecido na minha vida antes? Não sei dizer. Os fabricantes de lenço de papel estão em pânico: a demanda na América do Sul caiu pela metade. A indústria farmacêutica está desesperada! Não compro mais antialérgicos, nem corticóide nasais, nem broncodilatadores (as “bombinhas” de asma), nem antiinflamatórios para suportar a sinusite. Não sou teimosa a ponto de duvidar da relação dos meus novos hábitos com isso, nem por um segundo.

A relação com a vida, com as dificuldades do dia-a-dia, com os problemas, que são coisas que não só os gordos têm, ficou mais fácil. Aliás, vou contar um segredo: emagrecer não é a chave mágica da felicidade, o mundo continua girando com tudo de bom e de ruim que isso possa trazer. Uma produção equilibrada de neurotransmissores, as substâncias químicas produzidas no cérebro que nos auxiliam a processar todo tipo de informação e a conviver com a dor e o prazer de forma mais satisfatória, pode ajudar e muito a ter uma vida mais “lubrificada”, onde as dificuldades sejam vistas apenas como aquilo que são: dificuldades.

E por último: sim, para manter a forma! Quero sim, ficar bem esteticamente. Quero sim, ser o mais bonita que eu puder ser. Acredito que haja pessoas que não precisem de esforço pra isso. São poucos abençoados, mas conheço alguns. Mas é uma questão matemática, individual. Não é o meu caso. Para que eu tenha a mínima liberdade de comer sem ficar neurótica preciso gastar. Meu metabolismo não dá conta só com meu gasto básico de energia. Preciso encarar isso com realismo.

Ainda estou tentando chegar a um ponto de quilíbrio entre o que eu consumo e gasto. Minha idéia original sempre foi uma hora de atividade física por dia, por isso tive de evoluir da corrida de 5 km para a de 7,6 (não é um número cabalístico, é só o equivalente a duas voltas na parte demarcada da pista da Avenida dos Andradas), que faço em 50 minutos em média. Para manter uma produção de endorfina satisfatória e minha condição respiratória no cabresto preciso de uma rotina de pelo menos 5 dias por semana de atividade. Esse é o meu objetivo. Além de me alimentar bem, de maneira saudável, ingerindo o máximo de fibras e água que for possível.

Como acaba essa história? Ela não acaba. Começa toda manhã. O plano é simples, mas tenho que encontrar horário na minha rotina todos os dias, tenho que encontrar a disposição pra correr, pra sentir calor, pra sentir frio, tenho que encontrar tempo firme, alguém para ficar com meu filho,  tenho que encontrar sede, bom senso para comer, frutas na geladeira (não, elas não nascem lá!). Todos os dias eu acordo sem nada disso, como qualquer outra pessoa. É por essa razão que acho importante lembrar os detalhes, todas as grandes tristezas e pequenas alegrias. Não esquecer nada. Saber sempre que foi escolha minha e que cabe a mim sustentá-la.

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Quando eu emagreci 40 kg… PARTE V

Metamorfose corredora

Foto de Pedro Reis - Fonte: http://br.olhares.com

Quando uma pessoa chega a ficar muito acima do peso, um emagrecimento, ainda que seja rápido, demora a ser notado. Como eu andava meio quieta e afastada e minhas decisões eram muito individuais, levou algum tempo até as pessoas começarem de fato a perceber a diferença. Mas a partir do momento em que ficou gritante coisas engraçadas começaram a acontecer. Um vizinho que nunca tinha dado o menor sinal de sociabilidade resolveu me cumprimentar (será que ele tem algum escrúpulo em se misturar com pessoas obesas?). Completos estranhos vinham falar comigo. A maioria só para me parabenizar e incentivar, mas teve um senhor que trouxe de casa pra mim a dieta da sopa. Uma antiga colega de colégio (que nem naquela época conversava comigo) um dia se materializou correndo do meu lado com a pergunta: “Quantos quilos você emagreceu?” O rapaz da banca de verduras me pedia dicas. Começou a ficar folclórico.

A medida que sua silhueta vai mudando, mudam também os olhares. Até o final de julho  já pesava menos de 70 kg e qualquer aparição pública virava um acontecimento. É uma sensação maravilhosa porque você sente que as pessoas em volta reconhecem sua conquista, aquela reação não é apenas à sua mudança física, é principalmente à sua vitória. Mas em algum lugar também bate uma certa melancolia… Você sabe que continua a mesma e se pergunta porque tantos não enxergavam seu brilho antes. A resposta só se encontra algum tempo depois… A verdade é que você estava disfarçada e não sabia. A maioria das pessoas te via, mas não te enxergava porque pra fazer isso tinha que cavar na fantasia e só quem ama se da a esse trabalho.

Engana-se quem pensa que tem a ver pura e simplesmente com preconceito (embora uma parte seja isso sim!!!), tem a ver com negligência. Todo mundo no fundo sabe que quando alguém abre mão de si mesmo em termos de saúde, de alegria, de vaidade, de estética (também, por que não?) é porque deixou de se querer bem. É o começo de uma história que não promete final feliz, triste de assistir. E é só prestar atenção aos filmes, novelas, programas, músicas pra perceber: Ninguém que saber de história de desamor.

É por isso que não da pra não tansbordar de alegria quando uma antiga conhecida, às vezes até uma amiga que não se via há algum tempo, fica exultante ao ter que te olhar muito nos olhos antes de te reconhecer, logo depois de ter te abraçado sem graça pensando que você era uma estranha cometendo um engano. Não é o simples reflexo da ditadura da magreza, não. É a sensação de estar de volta a si, ao seu comando, ao seu corpo, ao seu controle. Não tem nada completamente definido, resolvido ou consertado na minha vida. É o começo de um longo caminho. Só que hoje não me sinto 40 kg  mais magra, me sinto 40 kg mais eu.

“Eu prefiro ser essa metamorfose ambulante

Do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo.”

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Quando eu emagreci 40 kg… PARTE IV

Comecei desse jeito…

Havia um bom motivo pra eu sempre ter preferido a bicicleta… era uma péssima caminhadora. Aquela pista estava ali, do lado da minha casa, desde minha adolescência e quando eu cismava de andar era um fiasco: todos os velhinhos e velhinhas presentes eram mais rápidos do que eu. Aí eu desistia… E de repente chego lá para correr! Como é que era correr? Como é que se começava? Bom… como não sabia fui andar.

Na minha consulta seguinte anunciei pro médico toda feliz. Ele me olhou meio descrente e foi direto como sempre: “Está caminhando rápido? Suando? Acelerando a respiração? Não está passeando não, né? Senão é melhor ir ao shopping!” Eu fiquei pensando naquilo… Estava passeando? Será que estava perdendo meu tempo? Ele percebeu que estava confusa (maldita transparência!) e acrescentou: “Você devia experimentar correr… bem aos pouquinhos… Só o que você aguentar. Vai ver que o resultado é muito melhor.”

Tá bom, tá bom!! Abril tinha chegado, já era hora. A pista é demarcada, resolvi correr 100m, caminhar 300 m e correr mais 100 m. Durante uma hora. Devo confessar que era horrível… Sabia que estava bem fisicamente, pois estava consultando um médico, mas a sensação era de morte iminente. Sabe o velho “botar os bofes pra fora”? Era isso. Além de tudo, por causa dos problemas respiratórios, que incluíam até um pouco de asma, a capacidade pulmonar era bem reduzida. Minha última espirometria tinha sido um desastre, irritando até a fisioterapeuta que conduzia o exame. Aquelas marquinhas no chão nunca me pareceram tão distantes umas das outras…

Umas 3 semanas depois resolvi correr 200 m e andar 300 m. Puxa vida! Era uma tortura! Dava pra ouvir meus pulmões gritando: “Pra mim chega! Para com isso!” Mas a teimosia era maior e tinha recompensas: Até então estava indo ao médico todo mês, só me pesava lá e infalivelmente perdia em média 5 kg. Então me sentia muito bem! Estava me superando consistentemente e emagrecendo ao mesmo tempo. Uma sensação maravilhosa. Tão boa que passei a correr 300 m e andar 300. Depois andava só 200 m. Mais um tempinho corria 400 m e andava 100 m.

Essa virou minha rotina de todos os dias. E “todos os dias” no caso não é força de expressão. Não tinha sábado, nem domingo, nem Sexta-feira da Paixão, nem festa, nem sono, nem calor, nem frio e nem chuva. Eu arrumava um jeito. Sei que não é assim. Não é o que os especialistas recomendam. Mas era o que eu precisava na época. Mostrar pra mim que eu podia. Ficava atenta aos sinais do meu corpo porque morria de medo de ter uma lesão e ser obrigada a parar. Mas eu estava bem, o médico confirmava isso e as articulações não reclamavam então segui em frente.

Todos me diziam da febre que tomaria conta. Diziam que eu ia querer correr cada vez mais e participar de provas e antes que eu percebesse me tornaria uma maratonista. Hummm… Em 19 de julho participei da minha primeira corrida (e única até hoje), fiz a etapa de inverno do Circuito das Estações Adidas 2009. Não consegui correr todo o percurso, que era só de 5 km, mas foi legal. Parecia um festival, um show de rock. Bastante divertido, mas acho que minha competitividade é muito baixa para as provas, elas não mexem comigo. Mais importante foi que nesse mesmo mês viajei para a praia e levei tênis, shorts e tops. Calculei no calçadão mais ou menos a mesma distância que eu fazia em casa e pela primeira vez fiz tudo correndo. Cerca de 5 km. De tardinha, bem pertinho do mar, fiz isso durante 10 dias… Foi tudo de bom. Voltei pra casa com a sensação de missão cumprida. Como se alguém tivesse me soltado de uma gaiola. Aquela menina pacata, que nunca jogou coisa nenhuma, podia correr sim, se quisesse. E ela queria.

“A gente em movimento: amor

A gente que enfrenta o mal

Quando a gente fica em frente ao mar

A gente se sente melhor…”

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Quando eu emagreci 40 kg… PARTE III

Correr pra quê?

Em fevereiro de 2009 minha vida estava em parafuso. Completamente incerta, mas de certa forma isso começou a me despertar. Pela primeira vez em muito tempo saía do torpor em que tinha me mantido e perguntava: “E agora?” Estava mesmo perdendo peso, o que fez com que a idéia de me exercitar fosse ganhando força. Claro que em outras épocas da minha vida já tinha feito atividade física, mas sempre fui, por excelência uma pessoa sedentária. Era uma criança quieta, uma adolescente quieta. Gostava de falar, de interagir, mas não de me mexer. E de repente me deu vontade. Tinha uma bicicleta ergométrica velha e nenhum outro lugar para começar, então foi nela mesmo.

Outro impulso que tive foi o de procurar um médico. Sentia que estava deprimida além da conta, comecei a pensar se não estava doente, com alguma disfunção metabólica ou hormonal, mas com quem eu ia discutir isso? Marquei consulta com meu alergista.

Eu tinha ido parar no Dr. Eduardo uns três anos antes, quando todos os meus problemas respiratórios atingiram um ponto insuportável causando sinusite crônica e asma. Nossa primeira consulta foi bem interessante a começar pelo preenchimento da ficha:

– A senhora (ele é todo assim) faz atividade física? – perguntou

– Não – respondi sem dó

– Por quê?

– Porque não gosto?

Ele balançou a cabeça concordando…

– A senhora escova os dentes?  – perguntou bem sério

– Sim. – não tinha entendido bem a pergunta, mas…

– Por que gosta? – ele insistiu

– Não…

– Para uma pessoa alérgica se exercitar é igual a escovar os dentes: não tem que gostar.

Como discordar de uma lógica dessas? Não discuti. Mas não fiz nada. Ele, que dez anos antes tinha emagrecido muito e se tornado um maratonista, é um convertido, defensor absolutamente convicto da prática esportiva e de uma vida mais saudável . Consulta após consulta me fazia a mesma pergunta e eu dava a mesma resposta. Depois de um tratamento longo com vacinas eu havia melhorado consideravelmente. Mas ele sempre insistiu que se ficasse parada era o máximo de alívio que iria ter. Além do mais uma das melhores maneiras de se combater a depressão é praticando atividade aeróbica regularmente e eu também sabia disso.

Aí em plena quinta-feira depois do carnaval , de manhã, lá estava eu dizendo pra ele que tinha começado e que ia continuar. Então me olhou bem sério e vi que acreditou. Deu todas as indicações de especialistas que pedi, inclusive a de um psiquiatra, pois concordou comigo que estava deprimida, me pesou (era o único lugar que eu permitia isso)  e marcou meu retorno. Claro que ele disse que eu devia correr. E claro que eu achei a idéia absurda.

Mas saí de lá mais decidida ainda e continuei minhas pedaladas dentro do quarto até que… minha bicicleta deu seu último suspiro. Pesquisei todas as possibilidades de comprar uma nova e vi que não dava. Resolvi discutir o assunto com meu ex-marido e chegamos à mesma conclusão. No final ele perguntou distraidamente meio de brincadeira: “Por que você não corre?” Fiquei pensando nisso e percebi que não tinha opção. E fui. Naquele dia mesmo

Não parei até hoje. Não me tornei uma maratonista e nem pretendo, mas corro quase 8 km praticamente todos os dias. Minha vida mudou em diversos aspectos. É como se eu tivesse me mudado pra outro país, ou abraçado outra religião, tudo muito diferente. Nunca poderia imaginar que o caminho que sempre pareceu tão longe de mim, tão improvável, tão impossível ia ser justamente o que me levaria aonde eu queria chegar.

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Quando eu emagreci 40 kg… PARTE II

O que aconteceu?

Cheguei ao ano de 2009 com mais de 100 kg. Digo mais porque não sei precisar o número ou a data, simplesmente porque me recusava a subir na balança. Em fevereiro aconteceu uma grande ruptura na minha vida. Logo depois a primeira coisa a mudar foi meu apetite. Ele diminuiu muito. Não fiquei com aversão a comida, sabia que tinha que me alimentar, mas comecei a fazer isso de uma maneira mais racional. Comecei a conseguir ignorar os impulsos e comer por fome. A comida não era mais tão importante. Eu era. Então inclui no meu cotidiano muitas frutas e verduras. Não cortei nenhum alimento, diminui as quantidades. Não tinha um cardápio planejado, nem listas, mas passei a prestar muita atenção ao que consumia e isso por si fez uma grande diferença. E sem as dietas, que sempre aumentaram minha ansiedade, sem métodos  ou receitas mirabolantes, apenas uma decisão interna tranquila, mas muito profunda, eu comecei a emagrecer.

Porém o que me levou a engordar tanto não é nenhum enigma:  infelicidade. Não que eu nunca tivesse tido problema com peso antes. Tive sim! Minha vida inteira. Mas variar de medidas não é a tragédia. A questão é o quanto se importa com isso e o quanto não se importa. Explico: Existe uma equação em cada um, uma parte dela é feita das coisas que nos incomodam em nós mesmos e a outra é feita da nossa disposição em mudar o que nos incomoda. Esses dois lados têm que ser proporcionais, ou seja, quanto mais me chateia alguma coisa em mim, maior tem que ser minha vontade de ficar diferente. No momento em que essa ou aquela característica se torna uma grande dificuldade e eu não tenho o menor desejo de mudá-la, tenho um grande problema.

E foi o que aconteceu comigo. O excesso de peso dava uma insatisfação monstruosa, mas ao mesmo tempo eu não queria que isso ficasse diferente. Por quê? As respostas são muitas, mas acho que a principal seria: eu não estava satisfeita com a vida que tinha, mas não tinha coragem de deixá-la, por isso preferia não ter asas. Geralmente quem tem asa voa, não é? Então era melhor ficar bem presa ao chão.

E aí a vida resolveu agir. Muitas vezes quando não temos coragem de ter a atitude que precisamos, ela toma por nós.  Fui arrancada daquele cantinho confortavelmente infeliz onde estava (no meu caso, um casamento) e daí pra frente tive que dar conta do que incomodava em mim. E as coisas mudaram… Não foi do dia para noite, nem foi nenhum passeio no parque. Foi demorado e doloroso. Mas o  autoconhecimento é sempre uma viagem difícil.

A boa notícia é que compensa com tanta intensidade que é complicado descrever.  É quando se sente que dentro de si alguma coisa desmoronou e abriu lugar para um caminho novo. Chegar a essa descoberta e abraçá-la requer usar toda coragem e toda a força de dentro de nós, mas, no final, encontrar compaixão suficiente para me resgatar foi um dos momentos de solidariedade mais doces que já vivi.

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Quando eu emagreci 40 kg… PARTE I

Eu em setembro de 2008

No ano passado, sem redução de estômago, sem clínica, sem endocrinologista, sem nutricionista, sem personal trainer, sem remédio ou dieta eu emagreci 40 kg. 40% do meu peso anterior. Em qualquer um seria uma grande diferença, mas em uma mulher de 1,65m foi brutal. Ou seja, virei outra pessoa, espantando família, amigos, vizinhos, conhecidos, novos e antigos (menos o meu filho que acha que continuo absolutamente a mesma). Isso pra mim se tornou uma brincadeira, quase um jogo. Quando quero ver uma pessoa, que não me conhecia antes, realmente assustada conto que perdi 40 kg. Ou então escolho alguém que não me vê há muito tempo e me reapresento. É divertidíssimo. Interessante também perceber os olhares de desconfiança do tipo “Não fez redução?? Sei…” “Não tomou remédio?? Tá bom…” E como é engraçado senti-los perscrutando no meu rosto o “segredo” ou  tentando descobri-lo fazendo várias perguntas para que eu finalmente caia em contradição.

Mas o mais incrível mesmo é a comoção. As pessoas ficam cheias de esperança, genuinamente satisfeitas e até orgulhosas  com a minha conquista. Acho que faço com que a meta de cada um fique mais próxima, mais possível. Tenho brincado ultimamente que posso conseguir qualquer favor de qualquer um, tamanha a força que esse caso tem.  Acho que minha história da uma dimensão humana para os sonhos mais secretos. Por isso resolvi contá-la aqui. Decidi compartilhar com muitas outras pessoas os detalhes dessa viagem em um blog. Vou descrever toda essa fase e suas descobertas. O que fiz, o que pensei, o que me levou a cada passo.

Depois que desvendar todos os mistérios que envolveram minha transformação externa, vou passar para a outra. A redescoberta das muitas camadas interiores que fazem de uma mulher… uma mulher. Se tudo o que passei foi uma jornada de autoestima quero que muitas entendam esse percurso. Estou cada vez mais convencida de que precisamos saber mais de nós, olhar mais para nós. Sinto que discutimos e discutimos sem nunca encostar nas feridas. Quero fazer isso, porque é o que tenho feito comigo e tem ajudado bastante.

Fica então o convite para explorar a alma feminina através da minha.

Sejam todos bem-vindos!

Eu essa semana

“- O que é que houve, meu amor…

Você cortou os seus cabelos?

– Foi a tesoura do desejo…

Desejo mesmo de mudar!”

Alceu Valença


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